27 setembro 2008

e tantas vezes dou por mim a dizer isto:

Lisboa tem um vestido azul feito de
mar e guerra.

E cheira a laranjas maduras.

Quando as gaivotas trazem no bico
os primeiros pedaços de sol para acender o dia,
Lisboa deixa correr os cabelos pelo Tejo
e o povo pelas ruas.

À mesma hora, a coragem agita no sangue
duas grandes asas inquietas.

Por todas as janelas destruídas, já o mar entrou,
derrubando acácias,
cantando hinos de espuma

E porque toda a coragem é necessária,
toda a esperança é legítima.




joaquim pessoa, não me lembro o livro, nem o ano.....

Alexandre O'Neill

Há palavras que nos beijam

Como se tivessem boca,

Palavras de amor, de esperança,

De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas

Quando a noite perde o rosto,

Palavras que se recusam

Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas

Entre palavras sem cor,

Esperadas, inesperadas

Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama

Letra a letra revelado

No mármore distraído,

No papel abandonado)

Palavras que nos transportam

Aonde a noite é mais forte,

Ao silêncio dos amantes


Poesias Completas 1951-1986

25 setembro 2008

A minha filha disse:

"o meu pai é a mãe mais bonita da minha escola".
E eu à noite chorei.

Find Maddie

O mundo está cheio de Madalenas. Algumas vão ser mães de outras Madalenas. Os laços que perduram no tempo, e que sempre irão ficar, os da família, também se quebram. Também se perdem porque muitas vezes nunca existiram. Eu sei que o mundo está cheio delas. Madale(i)na(e)s perdidas neste mundo. Mas enquanto não as conhecemos não as vivemos.

23 setembro 2008

os dragões não existem

Ontem sonhei com ele. Era alto e forte, o mais poderoso de todos. Não estava comigo, mas mandou por e-mail uma fotografia das suas voltas pelo mundo. Desta vez estava a abraçar um Dragão. O meu pai abraça dragões. Eu sei que os dragões não existem, mas em sonhos podem existir. Em sonhos podemos abraçar quem quisermos. Em sonhos.
O meu pai, esse homem, que acho que já vi. O meu pai, esse homem que a minha mãe nem quer ouvir falar. Mas anda na volta ao mundo, nas viagens sem fim. Um dia, sei bem, que vem tocar à minha porta e levar-me para andar num barco grande, e nesse dia sei que o vou abraçar, mas não em sonhos.
O meu pai anda pelo mundo, e tenho a certeza que já me escreveu um postal. Perdeu-se no correio, com as cartas todas que já me enviou. O meu pai, que nem uma fotografia eu tenho com ele. Abraça Dragões, viaja pelo mundo. E um dia vem cá ter comigo, viaja para perto de mim. Pára de fugir pelo mundo e vem para mim. Nesse dia, roubo todas as prendas do dia do pai que fiz na escola e ofereci à minha mãe. Nesse dia, passeio orgulhosa com ele de mão dada, mostro todas as fotos dos meus nove aniversários e peço-lhe um beijo. Nesse dia acredito em Dragões e em fadas.