12 agosto 2009

Palavras

Vi trigo vi fome
vi ferros vi feras
vi ruas vi nomes
vi grades vi esperas

vi armas vi muros
vi lutas vi mortes
vi surdos vi mudos
vi fracos vi fortes

vi mares vi terras
vi negros vi servos
vi fardas vi guerras
vi balas vi nervos

vi corpos vi cardos
vi fama vi glória
vi punhos vi cravos
vitória vitória

vi abril vi povo
vi rosto vi espanto
vi nosso vi novo
vi pouco vi tanto

tão cedo tão cedro
tão certo tão perto
tão raiva tão medo
tão mar tão deserto

tão lua tão leve
tão pobre tão pouco
tão fúria tão febre
tão longe tão louco

tão alto tão erva
tão raso tão resto
conversa conserva
tão lento tão lesto

tão urze tão hoje
tão zero tão tojo
tão fica tão foge
tão ontem tão nojo

tão mata tão morra
tão égua tão água
tão pinho tão porra
tão merda tão mágoa

Joaquim Pessoa in
125 poemas: antologia poética, p. 51-52

10 agosto 2009

os dias perfeitos

foram feitos de maresia. os dias perfeitos sabem a sal. ficam com areia no cabelo.

Nos dias perfeitos ouve-se música ao fundo que pensamos ser apenas para nós, a pele está macia, o cabelo acaricia os ombros.

Nos dias perfeitos há uma brisa que me abraça o corpo. Nos dias perfeitos não me sinto eu. Nos dias perfeitos há uma oliveira, e muita poeira. Nos dias perfeitos nem penso que são dias perfeitos....

09 agosto 2009

fases

as voltas que a vida dá faz com que muitas palavras fiquem por dizer. Não que não as sinta, não que nao as oiça na minha cabeça, mas dificilmente chegam à ponta dos dedos. Palavras que, muitas vezes, são só minhas e não podem nem devem ser partilhadas com outros. Mesmo que esses outros sejam aqueles que mais bem me querem. Por isso as palavras passaram como os dias. Formam dias, semanas e meses onde nada se escreve para os outros.
São fases da minha vida. Fases que não chegam aqui, fases rápidas, fases que são retomadas. São fases ou será que fazes?........

11 maio 2009

e quando

aos 4 anos, se diz à prima mais velha 3 anos, isto: "não nos vamos chatear por causa de um lápis, pois não?".....significa realmente o quê?

05 maio 2009

amanhã

faço anos. 36.
Parece que estive a dormir nestes últimos anos. Há coisas que não me lembro como as consegui. Percebi que, afinal, eu não controlo a minha vida. Posso eventualmente, decidir no ínfimo leque de eventuais escolhas.
Os caminhos cada vez mais delimitados, as perspectivas cada vez menos amplas. A areia entre os dedos, a escorrer. 36 e a contar....
parabéns