20 novembro 2013

A Bungavília

Não tenho terra. A minha terra é esta, não nasci aqui, nasci uns kms ao lado, mas sempre vivi aqui. Morei uns anos do outro lado do rio grande ou do mar da palha, como lhe chamam. Mas a minha terra é este subúrbio. Uma cidade com vida de aldeia. Um subúrbio onde se conhecem as pessoas pelos nomes ou alcunhas. Há as ratinhas, havia a Maria do Vasco e a filha dela, há sempre uma figura de se destaca pela sua loucura, fruto de vida bebida demais ou bebida pela vida. Um subúrbio onde muita gente sabia quem eu era por ser neta ou filha (e agora mãe) de alguém, mas que poucos sabem o meu nome. Uma cidade que se ouve o sino da capela ou, aos domingos, o meio dia pela sirene dos bombeiros.
Não tenho terra. Mas tenho o Casal do Paúl. Uma casa com quintal grande que os meus pais compraram há uns anos largos. Foi reconstruída, aprendemos a trabalhar uma serie de materiais e a plantar uma outra serie de coisas que crescem na terra e da terra.
No quintal grande do Paúl, há uma Bungavília que trepa pelo alpendre até ao telhado. Enorme. Linda. A bungavília não me viu crescer. Já me viu mulher. Mas, pensando bem, a bungavília viu muitas coisas minhas. Conheceu a maioria dos meus (des)amores. (ou)Viu as pausas e restart da vida. (ou)Viu as minhas barrigas. (ou)Viu as minhas filhas de colo. Viu a barriga da minha irmã e viu a minha sobrinha.
A Bungavília não é minha. É dos meus pais. Nem eles sabem o quanto gosto dela. Aliás ninguém calcula o bem que me faz olhar para ela.
A bungavília suja o chão. A bungavília está enorme. Já em tempos se falou em cortar a Bungavília. A minha mãe não deixou. O céu visto por baixo da bungavília é muito mais bonito.
A Bungavília estava lá quando aparecemos naquela terra. Não se corta a bungavília porque ela sempre esteve lá para nós. Umas vezes em flor outra vezes a sujar o chão. Mas sempre lá. Quantas flores apanhadas da Bungavília é que as minhas filhas me deram?
Nunca tive terra. Os meus pais têm uma bungavília que sempre lá esteve e sempre vai lá estar. Uma mãe não deixa cortar a Bungavília porque a
 Bungavília dá flores da cor preferida das meninas. Porque a Bungavília  faz o céu mais bonito. Porque a Bungavília é A Bungavília.

09 novembro 2012

Voltar

No meio do deserto, ele caminhou nas poças de água.
No meio do deserto, ele conheceu a cor das flores.
No meio do deserto, ele procurou os pingos mais grossos da chuva.
No meio do deserto.
 As cores feitas outono, os cheiros feitos inverno.

No meio do deserto, ele relembrou a meninice.
O cheiro a manteiga nos dedos, a cor negra por baixo das unhas, as lágrimas engolidas para não dar parte fraca com as quedas e arranhões nos jogos da bola.

No meio do deserto, ele procurou o conforto.
No meio do nada e tudo a aparecer como se fosse um caleidoscópio que gira incansavelmente.

No meio do deserto ficou desconcertado.
Como controlar as ideias?
Esta saudade do passado. Da meninice. Do bom dia, senhora professora.
Como parar esta onda gigante que se apoderava dos sentimentos, da razão, do coração?

No meio do deserto, ele esperava ainda por ela. Que não voltou. Que não voltará. Que não vai voltar nunca. Procurava a sua mão. Procurava o seu olhar. Ansiava por caricias no cabelo. Não vinham. Nunca vieram. Nunca estiveram.

Mas mesmo sem elas, sem elas nunca terem aparecido, ele achava que sabia como eram. Como elas aconchegavam, como elas cheiravam, como elas soavam. 
No meio do deserto e isto a passar pela cabeça.
Isto que há tantos anos que não aparecia assim tão vívido. Nestas palavras, nestes sentimentos, com esta força.
Claro que todos os dias o sentia. Claro que todos os dias o pressentia lá ao longe, a espreitar. Mas por isto ou por aquilo, não tinham coragem de aparecer assim de forma tão explícita.

Ela. A falta dela. A espera. Desde aquele dia do ”Até logo”. Não sabia que era até sempre. Não. Não vai ser até sempre. Um dia ela volta. Eu sei. Uma mãe volta sempre.

26 julho 2011

7 anos

comemorados ontem. Uma menina grande. Ontem foi o dia dos sorrisos, das gargalhadas, dos gritinhos, gritos e gritaria infernal. Que a alegria quer fugir pelas cordas vocais. Que a felicidade aparece em saltinhos. Um dia em cheio longe de mim, quando ao final da tarde chega, vinha com um sorriso enorme. A noite com meia duzia de gente foi plena. No sábado a festa grande. Pensada e preparada por ela. Dias e dias a pensar nos pratos, na decoração, nos convidados. Uma excitação desde que entrou nos mês do aniversário. Uma animação continuada dias a fios, porque a festa é no penúltimo dia do mês. Muita gente convidada, amigos, família, colegas de escola. Feita no melhor sítio do mundo para ela. Há um cartaz, feito por ela, que diz: não fique muito tempo no mesmo sítio porque as formigas picam. A festa da Carolina que já sabe ler e escrever, fazer contas no papel, nos dedos e de cabeça. A festa da Carolina que já entrou para a escola e que levava e trazia todos os dias na mochila a responsabilidade.
A Festa da Carolina que não gosta de Barbies, de princesas ou fadas. A festa que comemora os melhores 7 anos de sempre da minha vida porque são:
7 anos dela

02 junho 2011

Dia da Criança

E cada vez que te olho, reparo em ti. Cada vez que te cheiro o cabelo, acalmo os pensamentos. Cada vez que te vejo dormir, sinto a força e a esperança. Força para continuar a viver o melhor de mim. A tentar ser uma melhor pessoa. Por ti. Para ti.
Espero que um dia percebas o que ainda não te posso contar, nem sei se irei contar. Espero que um dia sejas uma Mulher com M dos Grandes. Como tu já sabes: "a liberdade é respeitares os outros para te respeitares a ti, não é mãe? Isso é a liberdade".

A tua alegria é contagiante. As gargalhadas que só nós trocamos fazem-me acreditar em ti. Em nós. Penso em ti todos os dias. Orgulho-me de ti todos os dias. Desde o tempo em que nem te conhecia a cara. Não sabia que ias ter o meu nariz. Não calculava que irias ter as minhas covinhas. Sabemos os duas rir de nós. Sabemos as duas interromper o choro para desatar às gargalhadas depois do banho. Sabemos as duas que tu vais longe: bombeira, veterinária ou modelo. Tanto me faz. Só quero que sejas feliz. E sumo na vida da Carolindeza Maior...feliz dia da criança todos os dias...

10 dezembro 2010

tanto mais


foste chegando devagar à minha vida. De repente já lá estavas. Já fazias falta quando não estavas. Já precisava de falar. De nada dizer. Só de saber que ali estavas. Uma amizade sem juízos de valor. Sem exigências. Sem recriminações. Uma amizade destas quer-se para a vida. Muitas gargalhadas, muitos sorrisos e algumas dores partilhadas. Que um amigo queremos perto. E a ti vou-te querer para sempre perto. Eternamente. Um amigo e tanto, mas tanto mais.

26 novembro 2010

Sentença


às vezes as palavras não se juntam. Não se encontram. Andam na cabeça, no coração, às voltas e voltas e teimam em não se encontrarem. Muitas vezes não precisamos de muitas. Basta uma ou duas juntas, de mãos dadas. Essas, são as que às vezes menos dizemos. Custa às vezes encontrar um desculpa. Um Enganei-me. Se uma sozinha custa a sair, fica lá atrás de uma grande pedra, a espreitar, à espera que a puxe, a chame, diga vem. Muitas vezes sai sem mais nem porquê. Daquelas vezes que não interessa muito, ou não interessa tanto. Porque se a utilizamos interessa sempre, nem que seja um bocadinho. Se esta custa a sair, há outras, que por serem mais e precisarem de outras, demoram mais a sair. E quando saem apresentam-se tarde ao serviço. Muitos autocarros depois. São as palavras: Gosto de ti. Gosto muito de ti. Gosto tanto de ti. Há ainda outras, mais VIPS, que viajam sempre em executiva. São os adoro-tes, os Amo-tes, os Fazes-me falta e o preciso de ti. Estas são as palavras que não se juntam, mas que estão lá sempre. Escondidas nas outras, as fáceis, as que deslizam por todo lado. Aquelas que flutuam e fazem com que fale até ao infinito. Mas há umas que estão na gama das que nunca digo: Ajuda-me, estou mal.
Estas são as palavras proibidas, as presas, as detidas que nem com pulseira electrónica podem circular.
São as palavras surdas, chamo-as tantas vezes. Não ouvem, não vêem e não falam. Estão enclausuradas. Não são para sair.
Um dia, vou libertá-las. Abro as grades, só para ver como se dão, quando tiverem olhos, ouvidos e boca. Quando se puderem sentar à mesa comigo. Quando estiverem comigo de mãos dadas. Um dia, leio-lhes a sentença.

29 abril 2010

Verde que te quero verde

Normalmente anda descalça na relva. É inevitável. É irrecusável. Faz lembrar a infância, a relva ao pé da casa da avó. Faz-lhe lembrar os vestidos de flores, as meias de renda. O sabor a nêsperas acabadas de apanhar. O cheiro a relva molhada é irresistível. Neste intervalo de almoço atreveu-se a sair e andar mais um pouco. Mais um pouco. Um relvado e um banco. Sentou-se no banco. Foi tirando devagar um sapato e depois o outro…os saltos já tinham um pouco de relva. Passeou por cima da relva um pé, depois outro. Finalmente levanta-se e caminha um pouco. O coração a acalmar, o sorriso da avó a voltar, as memórias a regressarem. Quase sentia o sabor a chocolate na boca. Quase sentia a calma da altura. Quase sentia. O sorriso voltou aos lábios. As mãos seguravam o cabelo. Olhou para o relógio e estava na hora de voltar para o escritório. Voltou com um sorriso, a colega que queria saber tudo disse: “Voltinha à hora de almoço? Há passarinho novo, parece-me”. E fez o que nunca tinha feito, respondeu: “Não, há relva antiga!” A colega que queria saber tudo não percebeu. Nunca iria saber que a menina Amélia tinha andado descalça na relva. Nunca iria perceber que a menina Amélia com quase 50 anos também já tinha sido mesmo mesmo menina. Já tinha tido avós. E que sabia sorrir, há muitos anos que não o fazia, mas sabia sorrir, quando as cócegas da relva lhe tocavam na alma.

10 fevereiro 2010

Brincos de princesa

eram aqueles que ela sonhava desde sempre. Eram aqueles brincos que quando era miúda pensava que as princesas tinham. Eram eles. Finalmente tinha-os na mão. Os brincos oferecidos por ele. Sempre ele. A vida toda. Um embrulho encarnado com florezinhas miúdas, um laço rosa. A caixa da Ourivesaria da rua de baixo. Abrir devagar. E eles surgem com um sorriso largo. Os brincos de princesa. Gostaste? Muito, diz ela. Eram estes os brincos. Posso sair com eles. Os meus brincos de princesa. Tudo para seres feliz. Vou já sair com eles e mostrar a todos. Os meus brincos de princesa. Desculpa a demora, disse ele. Foi o tempo suficiente para os encontrares, remata ela. Uma vida a sonhar com eles e neste dia de aniversário, o presente. Finalmente ia ser princesa para o resto da vida. Colocou os brincos e sorriu. Ele deu-lhe a mão trémula e amparou-a na rampa do lar que ia dar ao jardim. Os meus brincos de princesa vão iluminar o fim de tarde debaixo da oliveira. Parece que voltei à idade em que os vi pela primeira vez, disse ela. Ainda nem 20 anos tinha, pois não? Claro que não! Tinhas 13 e já passaram alguns anos. Diz ele. Quantos? Quarenta? Cinquenta? Setenta, afirma ele. E ela: foi o tempo suficiente para os encontrares, os meus brincos de princesa.

piloto automático

Ela que até gosta de sol nem reparava que o dia amanhecia lento e dengoso com os raios a surgirem. Há dias que nem repara se há sol ou chuva. Há dias assim. Há dias quem nem sabe o que almoçou. Há dias em piloto automático. Há demasiados dias assim.
Dias em que espera. Por alguma coisa. Não sabe o quê. Nem nunca saberá. Todos os dias em que abre o cortinado do quarto. Todos os dias que vê a rua e não vê as pessoas. Todos os dias que no autocarro, onde não há lugares sentados, não vê ninguém. Demasiados dias. Demasiadas pessoas. Demasiadas palavras. Demasiado para ela. Viveu anos em piloto automático. Anos assim, nasceram, cresceram, saíram de casa. Mudou cortinas, tapetes, quadros, toalhas, chão, pintou, lavou, escovou, cortou, cozinhou, carregou, arrumou. Em piloto automático. Em piloto automático levantava-se. Em piloto automático deitava-se. Os filhos foram feitos em piloto automático. Mas nesse dia, ao sair do autocarro, caiu. Caiu o piloto também. Viu que havia sol. Hoje há sol, disse quando se levantou e agradeceu o amparo do jovem que a ajudava. Chegou a casa e anunciou ao gato: hoje há sol. Há dias que não há sol. Hoje há sol. Foi à cozinha e não arrumou nem cozinhou, nem lavou, nem nada.
Foi ao quarto arrumou numa mala grande demasiadamente grande para toda a vida de roupa e arrumou. Dobrou. Arrumou. E quando ele chegou disse: hoje há sol nesta noite escura. Ele nem a ouviu. Procurou os chinelos. Procurou o roupão. Perguntou por eles. Ela disse estão na mala grande viagem, demasiadamente pequena para os raios perdidos de sol.

30 novembro 2009

sempre que precisares

Sempre que precisares estarei aqui no meu canto, a ver-te crescer. A dar-te as armas do amor e da razão para te defenderes dos outros. Não, não são maus. São apenas outras pessoas que sem saber magoam o coração. Se precisares estarei aqui a ver-te brilhar nas ondas grandes de outros mares. Tenho bóias e salva-vidas para te atirar. Espero-te na praia com a toalha limpa. Se precisares estarei aqui no meu canto a ver-te dançar, numa rumba de ideias e ideais, estou aqui neste canto do salão para te aplaudir e amparar. Se precisares, e quando precisares voar vou-te ajudar a colocar as asas brilhantes. Se precisares estou aqui, no meu canto, enquanto cresces, voas, brilhas e danças. Se precisares também tenho um beijo para te dar, filha.

Natal

lá fora já se aproxima o frio dos dias quentes de coração. Os dias em que estamos juntos finalmente daqueles que nos conhecem a vida toda. Dos dias em que ainda há em alguns olhos ilusões de estórias antigas. Os dias em que se é mais solidário. Os dias em que devemos estar juntos. Lá fora já há luzes que fazem brilhar olhares. Lá fora estão os carros e o fumo que sai da boca quente das pessoas. Lá fora há sacos, embrulhos de pequenos sorrisos. Durante anos e anos que estes pequenos sorrisos enchem grandes corações. Lá fora tiram-se fotos com os velhos vestidos de vermelho. Com barbas tão brancas de algodão. Os embrulhos com as fitas que os unem e rodopiam laços bonitos para os olhos, laçarotes que alimentam lareiras de cores eternas. Lá fora brinda-se com o vinho que está na mesa da casa, finalmente, a casa. Com cheiro a fritos de sonhos. Fica-se com o açúcar nos dedos. Fica-se com o açúcar no olhar, no coração. Lá fora já está o Natal. Cá dentro ainda se espera pelo saco de água quente que se finge que aquece o coração.

20 outubro 2009

castanhas

São estes dias que nos fazem escrevinhar
Que nos fazem pensar e assim sentir.
São estes dias em que a chuva se apodera do coração e nos faz chover por dentro. Mas esta chuva também é boa. Já reparaste que a seguir a muita chuva, o dia fica mais claro, parece que limpa.
Por isso gosto que às vezes chova no coração. No meu, quando chove, a seguir vem a luz. A claridade. Ontem choveu no meu coração. Salpicou outros sítios também….os pulmões, deve ter sido, parecia que me custava respirar...inspirar, e acima de tudo, expirar.
Sabes, há dias assim, que nos fazem escrevinhar. Dias de espera, de expectativas, dias de Outono. O Outono é a espera do Inverno. A preparação para o frio. A espera, a transição. Quando o Outono chega às ideias, faz com que as palavras caiam como as folhas. Outras, as perenes, permanecem. Como as palavras. Sabes, às vezes há Outonos nos corações, nas ideias, nas palavras, nos olhares. Ontem e hoje fiquei com ele. Esta doce melancolia que me faz querer reviver palavras, folhas que caem, cheiros de Outono que permanecem. Mas o meu Outono é sempre cheio de toques de verão. Sabes, há dias assim, melancólicos, nostálgicos, com sabor àquela doce solidão. Àquela solidão que faz emergir um sorriso doce, quente e bom. Como as castanhas.

11 setembro 2009

Eterno, Carlos Drummond de Andrade

Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo,
mas com tamanha intensidade, que se petrifica,
e nenhuma força jamais o resgata!

Fácil é ouvir a música que toca.
Difícil é ouvir a sua consciência.
Acenando o tempo todo,
mostrando nossas escolhas erradas.

Fácil é ditar regras.
Difícil é segui-las.
Ter a noção exata de nossas próprias vidas,
ao invés de ter noção das vidas dos outros.

Fácil é perguntar o que deseja saber..
Difícil é estar preparado para escutar esta resposta.
Ou querer entender a resposta.

Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade.
Difícil é sorrir com vontade de chorar ou chorar de rir, de alegria.

Fácil é dar um beijo.
Difícil é entregar a alma.
Sinceramente, por inteiro.

Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida.
Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e te fazer feliz por inteiro.

Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica.
Difícil é ocupar o coração de alguém.
Saber que se é realmente amado.

Fácil é sonhar todas as noites.
Difícil é lutar por um sonho.

Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar.
Difícil é mentir para o nosso coração.

Fácil é ver o que queremos enxergar.
Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto.
Admitir que nos deixamos levar, mais uma vez, isso é difícil.

Fácil é dizer "oi" ou “como vai”?
Difícil é dizer "adeus".
Principalmente quando somos culpados pela partida de alguém de nossas vidas...

Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados.
Difícil é sentir a energia que é transmitida.
Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa.

Fácil é querer ser amado.
Difícil é amar completamente só.
Amar de verdade, sem ter medo de viver, sem ter medo do depois.
Amar e se entregar.
E aprender a dar valor somente a quem te ama.

Falar é completamente fácil, quando se tem palavras em mente que expressem sua opinião.
Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer, o quanto queremos dizer, antes que a pessoa se vá...

Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias.
Difícil é encontrar e refletir sobre os seus erros, ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado.

Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir.
Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso.
E com confiança no que diz.

Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação.
Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer.
Ou ter coragem pra fazer.

Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando algo o deixa irritado.
Difícil é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece, te respeita e te entende.
E é assim que perdemos pessoas especiais.

27 agosto 2009

As Armas do Amor

Desarmem
os campos minados da ignorância
onde se infiltra friamente
o preconceito, esse sim, fatal, letal, brutal
e não há senso que lhe valha
o preconceito desempalha
animais incongruentes
atacando pela trilha
de uma ilha outrora virgem
Aparência da virtude
O preconceito nunca falha
flecha certeira
na esteira
da inocência
aparência de virtude
E por mais que se escude
na justificação pseudo-ética
cosmética, caquética
do seu valor de guardião das morais
vitais pra lá do ano 2000
o preconceito não tem estado civil
é casado com a morte
divorciado da vida
é viúvo de si mesmo
é solteiro e por junto separado
suicida

Desarmem o preconceito!

Armem por favor as armas do amor
amor no sentido primeiro e secular
armem o mar
armem o vento p´ro uso depois
vão e regressem depois
mas por quem sois
mas por quem sois
armem as armas do amor
armem as armas do amor
armem as armas do amor
armem por favor
as armas do amor

Desarmem
as metralhadoras côr-de-cinza
que defendem
a condescendência
cautelosa, lacrimosa
das decisões oficiais
carimbadas despachadas
e só por isso legais
mas que vão milhas atrás
das atrozes realidades
que o corpo grita
e a alma berra
A condescendência não desferra
No cofre forte onde se encerra
a planificação ponderada
de um problema complexo
há soluções de fachada
2 mil mortos perfilados na parada
há palestras sobre sexo
é um problema complexo
nosso dano se ninguém resolve nada
ano após ano
2 mil mortos perfilados na parada
1 por ano
nossa escada em caracol para o nirvana

Desarmem a condescendência!

Armem por favor as armas do amor
amor no sentido primeiro e secular
armem o mar
armem o vento p´ro uso depois
vão e regressem depois
mas por quem sois
mas por quem sois
armem as armas do amor
armem as armas do amor
armem as armas do amor
armem por favor
as armas do amor

Desarmem
a pose altiva
emproada gargalhada
que veste a incompetência
incipiência
disfarçada de suma
sabedoria
quem diria
quem diria que debaixo de uma
só alegoria
tanto exemplo existiria
Exemplos de incompetência
são aos montes, são às serras
impossíveis de escalar
passos vãos, inúteis guerras
A incompetência é incapaz de se olhar
o cadáver inocente
é olhado pelo soldado incontinente
pelo menos é um olhar
a incompetência, nem pensar
nem pensar
em juntar o resultado à vontade
o sonhado
à realidade
e do real
partir para a utopia
menos mal
assim seria
menos mal

Desarmem a incompetência!

Armem por favor as armas do amor
amor no sentido primeiro secular
armem o mar
armem o vento p´ro uso depois
vão e regressem depois
mas por quem sois
mas por quem sois
armem as armas do amor
armem as armas do amor
armem as armas do amor
armem por favor
as armas do amor

Desarmem
a boa consciência arrogante
altissonante, complacente
da intolerância religiosa
da intolerância civil
da intolerância, tanto faz
desdenhosa e incapaz
de intuir na diferença
a trave-mestra desta vida
sal da vida
A intolerância é uma água envenenada
rota em jorros mas dos gritos
só sai água silenciosa
a mais perigosa
engrossa rios, traz detritos
traz a caixa das esmolas
flutuando já tombada
penetra casas e escolas
leva livros
ditos sagrados
mas levados
mais à letra
que a própria letra
das suas margens
e assim pondo-se à margem
dos próprios rios sagrados

Desarmem a intolerância!

Armem por favor as armas do amor
amor no sentido primeiro e secular
armem o mar
armem o vento pro uso depois
vão e regressem depois
mas por quem sois
mas por quem sois
armem as armas do amor
armem as armas do amor
armem as armas do amor
armem por favor
as armas do amor

25 agosto 2009

Liberdade

Nos meus cadernos de estudante
Na escrivaninha e nas árvores
Na areia nevada
Escrevo o teu nome

Nas páginas lidas
Em todas as páginas brancas
Pedra sangue papel ou cinza
Escrevo o teu nome

Nas imagens douradas
Nas armas dos guerreiros
Na coroa dos reis
Escrevo o teu nome

Na selva e no deserto
Nos ninhos entre as giestas
No eco da minha infância
Escrevo o teu nome

Nos meus trapos de caloiro
No açude de sol bafiento
No lago de lua esperta
Escrevo o teu nome

Nos campos no horizonte
Nas asas dos passarinhos
No moinho tenebroso
Escrevo o teu nome

Em cada sopro da manhã
No mar e nos navios
Na insensata montanha
Escrevo o teu nome

Na espuma das nuvens
E nos suores da borrasca
Na chuva densa e insípida
Escrevo o teu nome

Nas formas cintilantes
Nas cores dos sinos
Na verdade física
Escrevo o teu nome

Nos caminhos conscientes
Nas estradas estendidas
Nas praças que trasbordam
Escrevo o teu nome

Na lâmpada que se acende
E naquela que se apaga
Nas minhas razões reunidas
Escrevo o teu nome

No fruto cortado em dois
Do espelho e do meu quarto
Na cama concha vazia
Escrevo o teu nome

No meu cão glutão e terno
De orelhas levantadas
Na sua pata desastrada
Escrevo o teu nome

No limiar da minha porta
Nos objectos familiares
No rolo de fogo sagrado
Escrevo o teu nome

Em toda carne acordada
Na testa dos meus amigos
Em cada mão que se estende
Escrevo o teu nome

Na janela de surpresas
E nos lábios comoventes
Mais longe que o silêncio
Escrevo o teu nome

Nos refúgios destruídos
Nos meus faróis extintos
Nos muros do meu tédio
Escrevo o teu nome

Na vacuidade sem desejo
Na desnuda solidão
Nas escadas da morte
Escrevo o teu nome

Na saúde reencontrada
No risco extraviado
Na fé sem recordação
Escrevo o teu nome

E pelo poder duma palavra
Recomeço a minha vida
Nasci para te conhecer
Para te nomear.

Paul Eluard
in Poésies et vérités, 1942

19 agosto 2009

estrela da tarde

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!

(Ary dos Santos)

sorrio

para mim. Passo a mão pelo meu ombro e digo: aqui me tens, aqui te tens. Sussuro-me ao ouvido: vais conseguir. tu és capaz. no meio disto tudo que criaste também vais ser capaz de ver o fim do novelo.
Olho mais uma vez para mim e suspiro. Penso: chegaste aqui tão depressa. nem dei por ti. nem dei por ter passado estes anos: 10, 20? e tu ainda assim, e tu ainda à procura do mesmo. Vais conseguir, digo-me. Não estás só, digo-me. Tens-te a mim.

17 agosto 2009

como

custa que os dias passem e este eco de nada na minha vontade.
Como custa estar aqui sem nada para oferecer.
Como custa falar e não ser ouvida.
Como custa ver-me morrer devagar, devagar.
Como custa tentar vir à superficie e respirar
Como custa esperar
Como custa esforçar-me por escutar
Como custa tentar
Como custa sorrir
Como custa desejar
como custa, quanto custa, ate quando?

12 agosto 2009

Palavras

Vi trigo vi fome
vi ferros vi feras
vi ruas vi nomes
vi grades vi esperas

vi armas vi muros
vi lutas vi mortes
vi surdos vi mudos
vi fracos vi fortes

vi mares vi terras
vi negros vi servos
vi fardas vi guerras
vi balas vi nervos

vi corpos vi cardos
vi fama vi glória
vi punhos vi cravos
vitória vitória

vi abril vi povo
vi rosto vi espanto
vi nosso vi novo
vi pouco vi tanto

tão cedo tão cedro
tão certo tão perto
tão raiva tão medo
tão mar tão deserto

tão lua tão leve
tão pobre tão pouco
tão fúria tão febre
tão longe tão louco

tão alto tão erva
tão raso tão resto
conversa conserva
tão lento tão lesto

tão urze tão hoje
tão zero tão tojo
tão fica tão foge
tão ontem tão nojo

tão mata tão morra
tão égua tão água
tão pinho tão porra
tão merda tão mágoa

Joaquim Pessoa in
125 poemas: antologia poética, p. 51-52

10 agosto 2009

os dias perfeitos

foram feitos de maresia. os dias perfeitos sabem a sal. ficam com areia no cabelo.

Nos dias perfeitos ouve-se música ao fundo que pensamos ser apenas para nós, a pele está macia, o cabelo acaricia os ombros.

Nos dias perfeitos há uma brisa que me abraça o corpo. Nos dias perfeitos não me sinto eu. Nos dias perfeitos há uma oliveira, e muita poeira. Nos dias perfeitos nem penso que são dias perfeitos....